O Idealizador da Restauração Meiji: Sakamoto Ryoma

por

Japão

2018-10-04

No Brasil a Restauração Meiji e consequentemente o Bakumatsu já não são expressões tão estranhas, o primeiro é ao menos citado nos currículos escolares, o segundo ganhou fama entre os jovens através de animes, em especial Rurouni Kenshin. No entanto nomes importantes desse momento histórico são obscurecidos seja pela falta de acesso ao tema, seja pela descaracterização que os meios de entretenimento trazem. É um contexto em que o maior herói da restauração para o povo japonês figura como ilustre desconhecido inclusive nos meios mais esclarecidos com relação a história japonesa.
Estamos habituados a ver a classe samurai como um grupo extremamente honrado, moralista e fechado. Elementos que não podem ser negados, mas deixando de lado essa visão idealista podemos ver que em toda a sua história dinheiro e poder movimentaram os interesses da classe. No século XIX a classe tinha o prestigio entretanto os nomes fortes economicamente era os comerciantes, o homem que veremos agora teve a oportunidade calcada na riqueza da família e é um dos principais nomes na extinção das castas japonesa. Ryoma Sakamoto nasceu no décimo quinto dia do décimo primeiro mês da era Tenpou, ou seja, dia 3 de janeiro de 1836. Era o filho mais novo de um rico comerciante do ramo de sake em Tosa que apesar de toda essa inflexibilidade samuraica comprou o título de goushi[1]. Estando nessa condição privilegiada começou treinar Kenjutsu aos 14 anos, mostrando muito talento e dedicação. Em 1853 foi para Edo treinar no Dojo de Chiba Sadakichi, sobrinho do maior espadachim da época, Chiba Shusaku. Com 19 anos já era shihan dai do dojo, ou seja, o segundo depois do mestre.

1853 também marca a chegada do Comodoro Perry ao Japão, e os jovens samurais foram convocados para defender a baía de Edo, a visão dos Navios Negros despertou grande xenofobia no jovem, que teria escrito para o pai “Acho que vai haver uma guerra logo. Se isso acontecer vou cortar algumas cabeças de estrangeiros antes de voltar para casa”. Não houve guerra, ele voltou para casa em 1854 e conheceu Kawade Shoryo, um grande especialista em cultura ocidental. Logo ele já possuía conhecimentos nas áreas de economia, política e sistemas sociais ocidentais, neste ultimo ponto ele se impressionou com a inexistência de castas, brotando em sua mente a idéia de que as classes mais altas não tinham muita utilidade.
Em 1862 sua visão iria mudar em 360º, mas nesse meio tempo ele participou de conspirações contra o daimyo de Tosa, Yoshida Toyo, graduou-se Menkyo Kaiden (nível máximo no kenjutsu) no Hokushin Ittou Ryu, fugiu de Tosa, crime cuja pena era morte, e que acarretou na morte de sua irmã mais velha. Em 1862 , junto com o filho de seu mestre decidiu assassinar Kaishu Katsu ,um oficial de alta hierarquia no governo do Shogun, entusiasta da abertura ao mundo, comandante do navio que foi para os Estados Unidos, homem disposto a satisfazer as exigências estrangeiras, uma ameaça ao xenófobos.
Um encontro foi marcado sob o pretexto de conversar sobre a modernização, Katsu, já sabendo das intenções que moviam Sakamoto, iniciou a conversa expondo o seu ponto de vista, mostrando que era inútil resistir a mudanças, se o Japão quisesse manter sua autonomia precisaria se modernizar, principalmente formar uma marinha competitiva. Ryoma não só ouviu isso como se sentiu envergonhado e pediu para se tornar discípulo de Katsu. Em 1863 o Shogun foi convencido a criar uma escola naval em Kobe, não por coincidência Ryoma foi indicado para comanda-la. Sua primeira medida foi reunir três centenas de pessoas sem distinção de classe, mas em especial samurais para evitar que eles se envolvessem em combates. O plano inicial era ensinar as técnicas de pilotagem e testa-las numa exploração em Hokkaido.


1864 foi um ano turbulento marcado por rebeliões, os clãs Satsuma e Choushu atacaram navios estrangeiros, sofreram duras retaliações européias, em pouco tempo Choushu se tornou um estado inimigo do bakufu[2] e todos os clãs foram convocados para conter suas ações. Satsuma não participou apesar de ser da coalizão shogunal pois seu líder, Takamori Saigo, foi convencido por Katsu a desistir da resistência contra modernização. Com todas as revoltas eclodindo a escola naval foi fechada e Kaishu Katsu retornou a Edo, enquanto Saigo foi encarregado de proteger os estudantes.
Ainda neste ano Sakamoto e alguns amigos fundaram a Kameyama Shachu, que posteriormente ficaria conhecida como Kaientai, a primeira corporação da história japonesa, uma empresa de transporte e comércio marítimo[3] que fazia serviços principalmente para o clã de Satsuma. Logo Sakamoto foi contatado por Kogorou Katsura que pediu ajuda na obtenção de armas para o clã Choushu. Em 1866 Ryoma conseguiu concretizar um pacto entre Satsuma e Choushu numa relação comercial fundada na troca de arroz e armas.
No dia seguinte ao pacto Sakamoto estava numa hospedaria com sua namorada e um oficial de Choushu quando mais de 20 indivíduos invadiram o local numa tentativa de assassiná-los, nem suas habilidades com espada e com armas de fogo conseguiram conter os invasores, enquanto Ryoma se escondeu o oficial consegiu solicitar um apoio de soldados para resgatá-lo.
Em 1867 um navio da Kaientai foi posto a pique por acidente, Sakamoto utilizou a situação como pretexto para utilizar pela primeira vez leis navais na solução de um conflito do gênero, baseando seus conhecimentos em leis estrangeiras, conseguindo uma indenização e evitando um conflito precoce com um clã Shogunal.

Mais uma vez numa atitude pacifista ele acreditou que a única forma de evitar a guerra entre anti-governistas e o governo era entregar o poder nas mãos do imperador. Um plano chamado Senchu Hassaku foi criado, o daimiyo de Tosa ficou muito interessado e foi o primeiro a pedir a renuncia do Shogun, e assim mais um clã estava alinhado com Satsuma e Choushu. O próprio Ryoma ainda formulou a lista de oficiais no novo governo, sem incluir seu nome, pois não se considerava apto à essa atividade. Ainda em 1867 o Shogun aceitou o plano e renunciou. Neste mesmo ano, aos 33 anos, Sakamoto foi assassinado no estabelecimento comercial Omiya. Alguns dizem que foi o Shinsengumi, outros que foram altos funcionários defensores do bakufu, mas a versão mais aceita é que os mandantes foram alguns de seus amigos, com inveja de seu poder e carisma, inveja de um homem que teve seu sucesso sempre pensando no benefício de outrem.

Nesse breve histórico estão contidos alguns de seus maiores feitos e pensamentos. Nós temos tendência de admirar pessoas como Musashi pela sua determinação, Tokugawa Ieyasu por seus feitos, mas Sakamoto não está atrás dele, foi um homem que combinou a determinação com uma visão do futuro que “simplesmente” formou a base do pensamento Japonês no século subseqüente, ou seja, sua obra em vida influenciou o pais, mesmo após a sua morte, de forma mais determinante que qualquer outro daimyo ou espadachim, e sem nunca ter matado ninguém para tanto. Através do pacifismo ele se tornou um grande “pai” da nação: “pai” da Marinha Imperial Japonesa, “pai” das corporações japonesas, “pai” da Restauração Meiji, “pai” do ideal de extinção de classes, e consequentemente da igualdade ( mesmo que teórica) de oportunidades.

– Bibliografia

– A base desse pequeno texto é outro pequeno texto intitulado “Sakamoto Ryoma”, escrito por Kazuo Yamada.

– Livros

-Beasley, W. G. The Meiji Restoration. Stanford: Stanford University Press, 1972.
– Sites

– http://kochi-bunkazaidan.or.jp/~ryoma/
– http://www.inforyoma.or.jp/hometown/

[1] A classe samurai era dividida em dois grupos, goushi estava abaixo do joushi, mas a condição era relativamente simbólica, as diferenças residiam em pequenos detalhes como a permissão para usar tabi ou guarda chuva.
[2] Regime Shogunal
[3] Posteriormente, em 1867, essa corporação seria comprada por Iwasaki Yataro, que a utilizaria na fundação da Mitsubishi.